A poupança vai desidratar?

Claudia Magalhães Eloy, Henrique Bottura Paiva e José Pereira Gonçalves em 02.03.2020

Com a Selic quebrando mais um recorde de mínima histórica – 4,25% a.a. – a poupança (nova) rende agora 2,98% a.a., abaixo da inflação que está próxima a 4%, gerando, portanto, perda real de valor com manutenção dessa tendência pelos próximos trimestres.

A evasão de recursos da poupança registrada no início de 2020 pode ser o prenúncio de uma trajetória de desidratação ou, em viés mais otimista, de que os resultados referentes à captação líquida das cadernetas de poupança no corrente ano não deverão ser muito expressivos, de modo que o crescimento do SBPE ficará restrito à rentabilidade da massa que permanece depositada. Algumas evidências apontam na direção da primeira hipótese:

  • em janeiro, mês em que se costuma observar sazonalmente a saída de recursos da poupança, a captação líquida foi negativa em R$ 9,8 bilhões, repetindo os fracos desempenhos deste mesmo mês em 2019 e 2016, quando houve perda líquida de R$9,4 bilhões e R$9,5 bilhões, respectivamente;
  • nos primeiros 21 dias de fevereiro, a captação líquida SBPE foi negativa em R$ 2,9 bilhões, sinalizando uma possível tendência de piora – nos últimos 3 anos a poupança apresentou perda líquida, em todo o mês de fevereiro, de R$ 2,8 bilhões (2019), R$ 586 milhões (2018) e R$ 486 milhões (2017).

Conforme pode ser verificado no gráfico a seguir, tradicionalmente, no mês de janeiro, é comum os saques superarem os depósitos. No entanto, o resultado nominal de janeiro é o maior da série, e em termos relativos é superado somente pela evasão observada em janeiro de 2016, quando as perdas corresponderam a 1,9% do saldo de dezembro e agora representaram 1,5%.

No mercado as opiniões se dividem entre os que apostam que as cadernetas de poupança devem continuar “despertando interesse, principalmente dos investidores mais conservadores”[1], enquanto o mercado financeiro faz a aposta contrária, na esteira da expectativa de fuga da renda fixa em direção aos ativos de maior risco, mas com potencial de gerar ganhos mais expressivos: entre os clientes de varejo tradicional, os de alta renda têm apenas 12,5% alocados em poupança, contra 68,2% no cômputo total, “abrindo espaço para novos produtos”.[2] Nesse sentido, os distribuidores de instrumentos financeiros vem reforçando suas equipes de especialistas para assessorarem clientes, além de propagandearem abertamente que as cadernetas perderam a competitividade.

Nesse contexto, releva destacar o otimismo expressado pela ABECIP[3] quando da apresentação do balanço do crédito imobiliário de 2019 e as perspectivas para 2020: sua projeção é de um saldo de poupança de  R$ 714 bilhões em dez/2020, resultado de uma captação líquida positiva de  R$ 28 bilhões, (similar ao de 2018 e cerca de 125% superior, em valores nominais, aos R$ 12,4 bilhões registrados em 2019.

Vale observar, ainda, que da captação positiva observada em 2019,  parte desse resultado pode ser atribuído  ao saque imediato do FGTS (entre setembro e dezembro o FGTS liberou cerca de R$ 37,7 bilhões), tendo uma parte desses recursos sido direcionada para as contas de poupança: esta que que até agosto apresentavam saídas líquidas de R$ 12 bilhões, no último quadrimestre do ano apresentou captação positiva de R$ 24,4 bilhões, contra uma captação de R$18,8 bilhões no mesmo período de 2018. Além de parte do saque imediato do FGTS, esse resultado também se deve aos tradicionais recursos oriundos do 13° salário recebidos nesse período.

Já discutimos anteriormente, em nov/2019, possíveis impactos da tendência de perda de rentabilidade (A Selic em mínima histórica de 5%: E a caderneta de poupança?) todavia naquele momento a rentabilidade da caderneta ainda se situava um pouco acima da inflação: 0,6 pontos percentuais. Embora não seja a primeira vez que a poupança apresenta rentabilidade real negativa, a hipótese de desidratação da poupança surge face os novos condicionantes e indícios do atual contexto, tendo como premissa a manutenção da regra de rentabilidade em 70% da Selic[4].

O gráfico a seguir apresenta a evolução da captação líquida em termos reais[5] acumulada nas contas de poupança em média móvel de 12 meses, demonstrando que, após registrar elevadas perdas em 2015 (R$ 50,1 bilhões) e 2016 (R$ 32,1 bilhões), provocadas em grande parte, pela retração econômica que levou os indivíduos a lançarem mão de poupanças passadas para complementação de renda, foi iniciada nova fase de recuperação que se manteve até o final de 2018. Nos primeiros nove meses de 2019, observa-se uma nova fase de redução cuja interrupção, de certa forma, pode ser atribuída ao saque imediato do FGTS[6], tendo em vista uma parcela desses recursos ter se direcionado para as contas de poupança.

A redução da captação líquida observada nos primeiros meses de 2019 teve como principal motivo a perda de competitividade da poupança SBPE frente aos demais instrumentos de investimento oferecidos pelo mercado. Merece ser lembrado que no período, assim como agora, a poupança tem sido alvo frequente de artigos e campanhas que enfocam a sua relativa reduzida rentabilidade, buscando induzir os indivíduos a optar por investimentos mais rentáveis, ainda que de maior risco.

Essa questão assume relevância em função da alta concentração dos recursos depositados em contas de poupança  De acordo com o Banco Central, com base nos dados constantes do último censo com informações sobre a garantia proporcionada pelo FGC – Fundo Garantidor de Créditos, cerca de 57,92% do saldo das contas de poupança são detidos por apenas 5,21% dos depositantes, sendo que 0,11% deles possuem saldos superiores a R$ 500 mil e detêm cerca de 10,52% dos R$ 650 bilhões.

Embora a concentração em um elevado volume de recursos num reduzido grupo de depositantes seja observada nas contas de poupança historicamente – o que pode ser atribuído, em parte, ao nível de concentração de renda do país aliado à diversificação de aplicações que o segmento de renda elevada realiza – somente a partir de 2012, os rendimentos nominais da poupança passaram a baixar do patamar fixado em 6% ao ano, sempre que a taxa Selic for inferior a 8,5%. O cenário atual parece distinto, justamente face a indicação de que a rentabilidade dos recursos mantidos nas contas de poupança deverá permanecer em níveis muito baixos (inferior a 3% em 12 meses, inferior, inclusive, aos juros pagos aos cotistas do FGTS) nos próximos meses, tendo em vista indicações de que a Taxa Selic deverá ser mantida em 4,25% durante todo o ano de 2020.

Por sua vez, observações sobre o comportamento da poupança e sua correlação com outras variáveis macroeconômicas indicam que em épocas de crescimento econômico o saldo das contas de poupança cresce, assim como em cenários de aumento do estoque de moeda. Além disso, à aceleração ou desaceleração do PIB corresponde um aumento ou diminuição tanto nos depósitos quanto nos saques (com aumento/diminuição da captação líquida), conforme demonstrado nos gráficos a seguir. Ou seja, com a expansão, mais transações ocorrem, o dinheiro circula mais e o uso da caderneta como conta corrente reflete isso.

Elaboração própria.
Elaboração própria.

Desse modo, é razoável supor que a partir do momento em que a renda voltar a crescer, também voltará a crescer o saldo da poupança. No entanto, esse comportamento pode mudar num hipotético cenário de rentabilidade real da poupança cronicamente baixa, como a esperada para os próximos períodos.

Por outro lado, com a possibilidade da Selic voltar a subir  para 6% já a partir de 2021 e 6,5% em 2022 e a inflação situando-se dentro da projeção – entre 3,8% e 3,5% (Focus, 21.02.2020) – a poupança voltaria a render entre 4,2% e 4,6% a.a. e apresentar algum rendimento real, melhorando sua  atratividade.

Acontecimentos recentes vêm adicionando maior incerteza ao cenário e suscitam tanto a saída de investimentos de maior risco – refletida no atual desempenho do Ibovespa – devolvendo atratividade a investimentos mais seguros, ainda que menos rentáveis, quanto revisões na expectativa de crescimento do país neste ano de 2020, as mais pessimistas chegando a 1,5%[7]. Enquanto a primeira tendência favorece a poupança, a última, se confirmada, compromete seu potencial crescimento.

Embora não se tenha elementos para cravar uma projeção, a pergunta que intitula este artigo é relevante à medida que remete à reflexão que, por sua vez, pode vir a promover medidas mitigadoras. Uma possível desidratação da poupança é perigosa posto que não há ainda outras fontes de recursos com potencial (sem falar no custo) equivalente de captação: os instrumentos criados no âmbito do SFI – CRI e LIG – seguem em desenvolvimento, mas com estoque atual combinado de apenas R$ 88,5 bilhões (jan/2020). Já a LCI, cuja trajetória de desidratação iniciou no princípio de 2018, conta com estoque reduzido para R$ 139 bilhões (jan/2020). A poupança SBPE tem hoje (20/02/2020) R$ 647,2 bilhões e a redução de seus estoques desaguaria em gargalo de oferta de crédito habitacional, impondo um freio para o setor. A projeção da Abecip (Balanço 30/01/2020) de uma concessão de R$103 bilhões em novos créditos ao longo de 2020 está condicionada à projeção de crescimento do estoque da poupança para R$ 714 bilhões no final deste ano.

Uma possível medida mitigadora, inclusive já veiculada pela imprensa, seria a recalibragem da rentabilidade num percentual superior aos atuais 70% da Selic, que melhoria a remuneração dos poupadores.

Embora a migração de uma aplicação com destinação direcionada, como é o caso da poupança, para outras possa ser vista, em teoria, de modo positivo – como promotora de maior eficiência para a economia no longo prazo, na medida em que distribui os recursos aos investimentos com maior potencial de retorno e, assim, acelera assim o crescimento de longo prazo – a perda nas contas de poupança deve ser encarada com preocupação, tendo em vista os recursos serem destinados ao financiamento de  atividades da economia real de elevado efeito multiplicador, além de atender o setor da construção civil e este segmento ser altamente empregador de mão de obra.

Deste modo, o momento requer monitoramento atento por todos os segmentos envolvidos, bem como o estudo de alternativas que visem amenizar uma possível desidratação mais significativa da poupança. Enquanto não se tenha plenamente constituído, em termos de volume de recursos, outro(s) instrumento(s) que possa(m) substituir ou complementar de modo mais substantivo a poupança no financiamento habitacional, o setor segue dependente dela e do FGTS.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a opinião dos demais colaboradores deste blog.


[1] https://opiniao.estadao.com.br/noticias/editorial-economico,credito-imobiliario-esta-em-franca-recuperacao,70003188446

[2] Pesquisa da Anbima citada por https://www.infomoney.com.br/onde-investir/brasileiro-aumenta-parcela-em-renda-variavel-mas-diversificacao-ainda-e-maior-entre-mais-ricos/

[3] https://www.abecip.org.br/imprensa/noticias/abecip-divulga-balanco-do-credito-imobiliario-em-2019-e-cena-para-2020

[4] MP 567/2012

[5] Valores mensais posicionados em janeiro de 2020 pela variação do IPCA

[6] Entre setembro e dezembro de 2019, o saque imediato atingiu R$ 37,65 bilhões, sendo: Set. R$ 10,16 bilhões, Out. R$ 10,47 bilhões, Nov. R$ 8,45 bilhões e Dez. R$ 8,57 bilhões.

[7] Bank of America, UBS, JPMorgan, Santander, Barclays, Citibank, BNP Paribas, MUFG Brasil e o próprio Relatório de Mercado Focus já revisaram para baixo as projeções de crescimento do PIB brasileiro em 2020.

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